Por cá, neste nosso pequeno burgo, para sermos considerados “ bons” no que quer que façamos, e na área artística não é excepção, a sombra lúgubre do velho ditado: “Santos ao pé da porta não fazem milagres” continua triunfante, a pairar e a reinar sobre as nossas cabeças.
Para se ser “alguém” se não se tem muito dinheiro, é fundamental, aos olhos dos nossos compatriotas, ir primeiro receber a bênção do grande Deus que é o estrangeiro, para quando regressarmos com a aura da sabedoria, regressarmos “Papas” nas matérias da nossa vocação, mesmo que delas não fiquemos a saber da missa a metade! O que é imprescindível é ir para o estrangeiro, mesmo que por lá em muitos casos, não se saiba fazer melhor do que por cá, pelo contrário!
Vivemos ainda, como dizia o Eça, limitados pelo síndrome pacóvio da mais elementar subserviência em relação ao estrangeiro. Este efeito vai permanecer enquanto não despirmos definitivamente as inibidoras cangas do passado e olharmos para nós de uma maneira clara e profunda, sem complexos de qualquer espécie, e possibilitarmos a nós próprios a capacidade de nos vermos exactamente como somos. Só tendo consciência do que verdadeiramente somos, poderemos de alguma forma neutralizar os aspectos mais negativos do nosso comportamento, aprendendo ao mesmo tempo, a ter um maior respeito e a potenciar as virtudes intrínsecas da nossa cultura, e a parti daí, com esforço e muita perseverança tirarmos o máximo partido das nossas capacidades que ainda são algumas e boas, e com isso projectarmos e abrirmos sem medo de rasgar fronteiras, (como os nossos antepassados fizeram outrora), novos rumos para outros oceanos mais auspiciosos e estimulantes neste tão conturbado mundo contemporâneo.
Há que desfraldar novamente o velame das naus...
"De facto, continuam a haver no mundo uns bonecos de carne e osso nunca suficientemente explorados: os artistas. A humanidade diverte-se incansavelmente a ver como eles são por dentro."
"O COMEÇO É A METADE DO TODO"